Esta torta enche os olhos de alegria, reflete nosso processo e traz a política como categoria presente em cada combinação de ingrediente, nos sabores que experimentamos e nos encontros que criamos na tentativa de desenhar, ensaiar e propagar outras narrativas a cerca da cultura alimentar.
O que chamamos hoje de Torta Caupi é resultado direto da experimentação de uma sapatão que resgata de forma carinhosa e inspiradora os fazeres culinários presentes em sua história e de uma ânsia em experimentar o sabor das leguminosas em versão açucarada, pois sempre foi intrigante se deparar com o gosto doce da ervilha e do feijão macassar hidratados quando são trituradas sem tempero nenhum.
Muitos testes, muitas versões e apesar de não ser possível dizer ainda que chegamos numa receita final, temos um jeito mais ou menos já engrenado para saborear esta bomba de energia estimulante que guarda na sua história relações de apoio mútuo sexodissidente, ancestralidade e resgate de saberes e conhecimentos culinários não ocidentais.
A base é nosso queridinho de África, o feijão macassar, (fradinho, caupi, nhemba, cowpea, black eyes peas, karamani, lobya, etc..) região onde primeiro foi domesticada esta leguminosa que durante muito tempo foi a principal fonte de proteína de vários povos. Por volta de 2300 a.C, este feijão entrou no sudeste asiático, se fazendo presente na Índia, Indonésia e Vietnã, elevando a superdiversidade de receitas no repertório dos povos que habitam estes territórios em seus pratos salgados e doces, afinal esta é uma região que mescla a mistura de sabores. Nesta pesquisa instigante sobre leguminosas e descolonização, descobrimos que o macassar, o azuki, o mung (moyashi) e o urad são todes espécies do gênero de leguminosas, Vigna, ou seja, são parentes, e tem como característica principal ser toda comestível, além das semenestes, os brotos, folhas, tubérculos.
Partindo desta relação de parentesco, resgatamos o Anko ou Dòushā, uma pasta doce de feijão azuki, comum na China, Japão e Coréia com diferentes graus de preparação, consequentemente, foi possível acreditar na versatilidade do macassar e experimentar. A sapatão foi bem ao fundo e testou receitas doces com várias leguminosas, chegando em resultados que instigava insistir explorando e ao mesmo tempo nos foi revelado a presença de arroz e feijão macassar como doces nos Nombu Adai e Karamani Sweet Sundal, passando pelo Che Dau Trang, sua versão inacreditavelmente chocante com leite de coco sendo conhecida como uma espécie de pudim, até parar na Indonésisa e descobrir que o Hunkwe é o amido do feijão mung usado para fazer seus tradicionais bolos, o Kue.
Desta forma, com a certeza que seria possível e recuperando estes saberes culinários não eurocentrados, gourmetizados, e gastronomizados, fizemos vários testes até chegar na versão que hoje anda nas ruas e em alguns estabalecimentos que revendem nossas tortas. Assim, nossa contribuição para a valorização da versatilidade cultural e alimentícia do feijão macassar tem leite de coco, amendoim, óleo de girassol, açúcar demerara, cacau, cenoura caramelizada e calda de goiabada. Garantimos que essa sobremesa além de deliciosa guarda um sabor especial que atualiza a conexão de pessoas negras da diáspora com esta leguminosa africana, alinha saberes tradicionais com os direitos animais, atua no compartilhamento de informações rumo a uma descolonização alimentar, ensaia práticas de troca entre sexodissidentes e fortalece suas sobrevivências a partir do trabalho ambulante de alimentos.