McVegan: Vegetarianismo e Assimilação

“Conhecida por vender hambúrgueres, a segunda maior rede de fast food do mundo (fica atrás do Subway em número de lojas) acaba de abrir uma loja 100% vegetariana na cidade de Amritsar, na Índia”. É assim que é apresentada a matéria do Vista-se sobre a novidade lançada por uma das empresas mais predatórias e exploradoras do mundo.

mcverggieNas redes sociais o êxtase dos vegetarianos consumistas chega a impressionar, um dos discursos diz: “Comeria lá com certeza e incentivo outras grandes marcas a entrarem nesse ramo. Temos de mostrar a eles que isso dará mais lucro que o tradicional.” outro comentário vai ainda mais longe: “Acho que se preocupar com o mercado e com as motivações morais das pessoas, por si, já é um mérito! Fico feliz em saber que o Mc Donalds se preocupa em oferecer opções a gente como eu!”. De acordo com os comentários só nos resta uma clareza, o estilo de vida questionador sugerido pela ética vegetariana se tornou vendável ao ponto das pessoas escolherem comidas vegetarianas pela mesma lógica que as fazem desejar roupas de grifes: como um produto de alto valor simbólico e mercantil.

É bem preocupante quando vegetarianes reformistas e consumistas, que assumem a alienação da sua alimentação a partir de produtos industrializados ou restaurantes sofisticados, vibram com a possibilidade do mercado absorver seu estilo de vida ou dieta hype, cool e distante da massa para que ela seja incluída nos mais distintos mercados. Na realidade este fato revela que o objetivo principal dos vegetarianos liberais, comumente pertencentes à classe média, é apenas garantir mais uma posição de privilégio no sistema capitalista, sair do gueto e se tornar shopping, celebrades, reconhecides e vangloriades pela mídia e opinião pública.

O capitalismo é um sistema, e como tal é estratégico, possuí uma grande base filosófica e racional e constrói todo um esquema simbólico capaz de penetrar na subjetividade humana. Portanto, qualquer questionamento que provoque uma crítica aos seus pilares e a sua estrutura será facilmente absorvido, compreendido, reduzido e deturpado para que ele possa transformar a crítica em demanda de mercado e atrair consumidores que se deslumbram facilmente com novidades, mudanças de hábitos e renovações. A produção industrial de alimentos além de ser predatória à animais não humanos devido aos assassinatos resultantes da exploração, poluição desenfreada, manejo e desmatamento é extremamente danosa à saúde e ao psicológico de seres humanes. O próprio Estado brasileiro, e outros tantos, reconhecem esta periculosidade atribuindo uma porcentagem – que pode chegar a até 40% do salário mínimo – de remuneração por insalubridade à trabalhadores industriais, regulamentada em leis trabalhistas.

empurraecomePara as pessoas que detêm poder colaborando com as estruturas hegemônicas, se faz taticamente necessário assimilar os aspectos rasteiros dos discursos questionadores para mascarar a complexidade de explorações e dominações envolvidas nas estruturas sociais e consequentemente frear possíveis crises de magnitudes mais intensas. Um dos fatores mais significativos para a emergência da crítica vegetariana se dá pela  exploração brutal e assassinatos em série de animais não humanos criada a partir da industrialização, portanto, criticar o consumo de animais não atentando a lógica de alimentação industrializada é completamente inconsequente e ingênuo.

Como o capitalismo foi bem sucedido em construir a sociedade que hoje temos, altamente tecnológica e rica, embora desigual, argumenta-se que, por ele ter produzido um mundo supostamente “bom”, acabou produzindo o melhor dos mundos possíveis ou que somente ele teria produzido esse mundo melhor, postura por sinal bem arrogante. Quando as insatisfações surgem, o próprio sistema se alia ao Estado para vender a solução, na forma de produtos, incentivos fiscais, políticas públicas ou leis, afinal a assimilação também busca a legitimidade de poder e a empatia por governantes e políticos colaboradores do capitalismo.

“Não há dúvidas de que o estado está do lado daquelxs que exploram xs animais. Com algumas exceções, a lei é decididamente anti-animal. Isso é demonstrado tanto pelos subsídios dados pelo governo às indústrias de carne e laticínios, de vivissecção e utilização militar dxs não humanxs, como pela sua oposição aquelxs que resistem às indústrias de exploração animal. Os políticos nunca irão entender porque é que o estado deveria proteger xs animais. Afinal de contas, todas as esferas da vida social perdoam e encorajam os seus abusos. Agindo segundo os “interesses” do eleitorado (humano), as decisões serão sempre traduzidas, por muito absurdo que seja, contra os interesses do reino animal [..]. Isto é, queremos realmente que o estado se meta entre humanxs e animais, ou preferimos eliminar a necessidade de tal barreira? A maioria concordaria que ter humanxs a decidir contra o consumo de animais sem nenhuma coação, é a opção ótima. Então pensemos, se a proibição do álcool originou tanto crime e violência, imaginem a crise social que a proibição da carne iria criar! Tal como a guerra da droga nunca fará nada para solucionar os problemas surgidos pela dependência química e o seu “submundo” correspondente, nenhuma guerra legal contra a carne conseguiria restringir a exploração animal; apenas causaria ainda mais problemas. A raiz deste tipo de problema reside no desejo, socialmente criado e reforçado, de produzir e consumir coisas que realmente não necessitamos. Tudo sobre a sociedade atual diz que “necessitamos” de drogas e de carne… Mas o que nós realmente necessitamos é de destruir esta sociedade!

Brian A. Dominik
‘Libertação Animal e Revolução Social’

O discurso assimilacionista ou liberal defende iniciativas de como a do Mc’Donalds com o argumento de expansão do veganismo. Daí nós perguntamos a que custo? Será mesmo que o não oferecimento de carnes para alimentação é mais importante que a exploração laboral ou a destruição que a produção de alguns alimentos podem causar ao ambiente e a saúde? Nós achamos que não. Se a luta é pela liberdade, que seja interseccional, isto é, que seja por uma liberdade estrutural, em várias esferas e não setorial, segmentada por estilo de vida vendável.

Este texto pretende apenas localizar politicamente os discursos em relação a novidade lançada pela McDonald’s. Cremos que associar libertação animal e alimentação com o mercado não traz uma discussão coerente sobre liberdade e horizontalidade, pelo contrário representa estratégia política de assimilação de discursos questionadores e críticos, além de representar uma sofisticação da opressão e uma alienação aos diversos aspectos que cruzam diversos interesses da sociedade.