A perseguição contra comportamentos e pessoas que estão em dissidência do regime político sexual da supremacia branca, tem origem na ideia de pecado e na alienação ignorante de que o ato sexual deve apenas ter função reprodutiva para que seja abençoado por Deus. As principais tradições religiosas da supremacia branca condenam a transgeneridade, a bissexualidade e a homossexualidade, apontando-as como antinatural. Contudo, todos os grupos de animais apresentam experiências de mudança sexual, afeto, relações parentais e acasalamento entre indivíduos que possuem genitais comuns. O que não faz parte da experiência dos animais não humanos é a perseguição e o preconceito por questões comportamentais.

A localização do pecado por parte dos cristãos fundamenta as violências que a dissidência sexual sofre nos territórios dominados por essa catástrofe que se autointitula como religião. Para muitos os animais não humanos não pecam, embora tenham (ou sejam) almas, pois fazem jus da interpretação racionalista de que eles apenas agem por instinto, incapazes de ter discernimento moral e de renegar os seus desejos. Desta forma o pecado acaba por ser um dos princípios que estabelece e consolida a divisão humano x animal da supremacia branca e ajuda a definir os humanos como seres que devem renegar sua natureza para obedecer às leis de um deus rude, branco, cis, heterossexual e europeu.
Este enredo daria uma boa ficção distópica, mas é a realidade e o desvario que rege o mundo ocidental por milênios. O fato é que ao apontar o comportamento antinatural da dissidência sexual é possível concluir que antinatural é renegar o que temos em comum com os não humanos exatamente por seremos todos animais: os comportamentos e afetos que a supremacia branca nomeou de transgeneridade, transexualidade, bissexualidade e homossexualidade.

Contudo é preciso ter cautela, chamar animais de trans, intersexo, gays e lésbicas além de puro antropocentrismo também fortalece o racismo já que é um meio de universalizar uma leitura branca da realidade. Também sabemos que tanto povos nativos de abya yala quanto africanos, concebiam uma diversidade de expressões de gênero, atribuíam a transição sexual a um poder espiritual e sagrado, bem como admitia a possibilidade de relações sexoafetivas entre pessoas do mesmo gênero. Estas relações sociais levou a condenação destas culturas pelo cristianismo e a caracterização delas como selvagens, animalescas e demoníacas, justificando a colonização e todas as suas engrenagens como a escravidão, a catequização e o extermínio das cosmologias destes povos, uma vez que os homens brancos representantes legítimos da humanidade delegaram as práticas que não eram comuns a suas ao mesmo status que eles davam aos animais não humanos.
Bonobos, girafas, leões, lagartos, tartarugas, galinhas, caramujos, pinguins, peixes-palhaços, cobras cabeça-vermelhas, sépias, golfinhos, botos, morcegos, gorilas, hienas, ovelhas, cisnes-negros, pombos, tartaranhão, tiveram comportamentos como namoro, atividades sexuais, união de casais e atividades parentais observados. Alguns cientistas chegaram a documentar que mais de 450 espécies de animais não humanos, de todas as classes, em todo o globo, expressam o que o homem branco chamou de bissexualidade, homossexualidade ou transexualidade.
Alguns etológos e biosociológos creem que esses comportamentos são frutos da organização coletiva, onde a função social do sexo serve para fortalecer alianças e laços comunais dentro de um grupo. Os bonobos por exemplo, são conhecidos por resolver os conflitos através da prática sexual; já um rebanho de ovelhas tem uma porcentagem significativa de indivíduos que exibem preferências entendidas como homossexuais pelo homem branco. Já em morcegos foi categorizado em 6 grupos: aliciamento e lambidas mútuas, masturbação, montagem e sexo entre indivíduos com genitais em comum. Já os peixes bodiões foi constatado a mudança de sexo: com a fêmea transformando-se em macho e assumindo a liderança do cardume com a ausência de um macho dominante, na outra perspectiva os peixes palhaços se desenvolvem primeiro como machos e quando amadurecem, tornam-se fêmeas. Se a fêmea da espécie for removida do grupo, por exemplo, por morte, um dos machos torna-se fêmea.

Entendendo que o reino animal tem fartas experiências de diversidade sexual e de gênero, concluímos que o princípio do pecado, materializa a animalização da dissidência sexual. O que os cristãos chamam de comportamento antinatural remete a vontade de deus para os humanos, ou seja, a crença na ficção sobre como deus quer que os humanos se comportem e se relacionem. Embora a ideia de natureza seja pertinentemente questionável ela deve estar mais associada ao que é possível acontecer e se transformar do que uma lei estanque e totalitária criada pela subjetividade humana. É a animalização que também fomenta o ódio aos corpos dissidentes, quando rebaixados ao status de animais, pessoas nesta condição são agredidas, violentadas e mortas sobre o pretexto de ora ser uma vida sem valor; ora ser uma vida demoníaca; ora ser uma vida bizarra que não merece existir por ferir a vontade de um deus sádico, autoritário e completamente arrogante que teve suas leis consolidadas no mundo através da colonização, da escravidão e missionarismo. Se a dissidência sexual é uma forma pecado, e o pecado vai contra a vontade de deus, que façamos aliança com nossos irmãos não humanos e o matemos de raiva, quem sabe sua pressão não sobre e ele desaparece desse mundo de uma vez por todas!